Antropologia, cogumelos psilocibinos e respeito às tradições

Um artigo publicado na revista científica Anthropology of Consciousness, assinado pela antropóloga Dra. Anita Lino, traz contribuições fundamentais para compreendermos o uso dos cogumelos do gênero Psilocybe nas Américas — e também no Brasil.

Mais do que “substâncias”
O estudo mostra que esses cogumelos não podem ser reduzidos à psilocibina ou à psilocina. Eles estão inseridos em redes complexas de ritual, afeto, circulação, poder e cosmologia, envolvendo usos oraculares, terapêuticos, espirituais, filosóficos e estéticos ao longo de milênios.

Uso milenar e circulação continental
Há evidências arqueológicas e etno-históricas do uso de cogumelos psicoativos desde períodos pré-colombianos. Um achado emblemático é uma bolsa ritual encontrada na Bolívia (c. 1.000 d.C.), contendo DMT, harmina, cocaína e traços de psilocina — o que sugere redes inter-regionais de saberes visionários, muito anteriores às fronteiras modernas.

Respeito nas tradições indígenas
Entre povos indígenas das Américas, especialmente no México, o uso dos cogumelos é raro, ritualizado e motivado por necessidade — nunca recreativo ou frequente. Mesmo lideranças espirituais mantêm uma relação de profundo respeito e parcimônia.

Modernidade e mercantilização
O artigo aponta que, na modernidade, os cogumelos psilocibinos passaram por um processo de mercadologização, marcado pelo turismo xamânico, pela apropriação de saberes indígenas e por usos desvinculados das cosmopolíticas originárias. Mais recentemente, esse processo inclui tentativas de patenteamento da psilocibina, a oferta de “terapias assistidas” comercializadas a altos custos e a redução de experiências complexas a protocolos clínicos.

Essas práticas apresentam implicações éticas relevantes: exploração econômica, apagamento de saberes tradicionais, produção de falsas promessas terapêuticas e reconfigurações assimétricas de poder nos campos da saúde e da espiritualidade.

E no Brasil?
Ainda há poucos dados etnográficos sobre usos tradicionais endêmicos. Entre os Huni Kuin, por exemplo, há registros dos bisus, cogumelos associados às mirações.

Em síntese
O uso de Psilocybe nas Américas não é recente nem exclusivamente contracultural. Ele faz parte de uma longa história de fluxos, resistências e relações entre humanos e fungos — um verdadeiro nomadismo micélico que atravessa territórios, cosmologias e regimes políticos.

Respeito, contexto e consciência importam.

O artigo está disponível em:

https://anthrosource.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/anoc.70031

Referência

Lino A. Cogumelos do gênero Psilocybe nas Américas e no Brasil. Anthropology of Consciousness. 2026.

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