A Psilocibina e a Nova Geografia da Consciência: Um Comentário sobre os Dados Epidemiológicos dos EUA e o Silêncio Institucional Brasileiro
Autores
Daniel Rodrigues
Advogado, professor, psicoterapeuta, yogi, livre pesquisador e micologista amador.
Atua na interseção entre saúde mental, consciência e políticas públicas envolvendo fungos psilocibínicos.
Gleicy Sotéro Roberto
Biomédica com especialização em Oncologia Molecular, graduanda em Farmácia, doutoranda em Toxicologia pela Universidade de São Paulo. Pós-graduanda em Psicologia Transpessoal, mestre Reiki, apômetra e instrutora de Mindfulness. Sua linha de pesquisa concentra-se no estudo das plantas e fungos medicinais com ênfase na medicina da ayahuasca e dos cogumelos psilocibinos.
Nota dos Autores: Este artigo é um comentário crítico desenvolvido a partir do relatório "U.S. Psychedelic Use and Microdosing in 2025: Insights from a Probability-Based and Nationally Representative Survey", publicado pela RAND Corporation em janeiro de 2026 (PRIEST et al., 2026).
Aproximadamente 11 milhões de adultos norte-americanos relataram uso de psilocibina no último ano, substância presente nos fungos popularmente conhecidos como cogumelos mágicos (referente ao período anterior à coleta de dados em setembro de 2025). Esse número não é apenas uma estatística expressiva: ele sinaliza um deslocamento histórico na maneira como as sociedades contemporâneas se relacionam com a lei, a consciência, a saúde mental e a governança das substâncias psicoativas.
Esse ponto de inflexão emerge do relatório U.S. Psychedelic Use and Microdosing in 2025, publicado pela RAND Corporation em janeiro de 2026. A pesquisa foi conduzida com amostra probabilística nacionalmente representativa de 10.122 adultos, coletada em setembro de 2025, oferecendo o retrato populacional mais preciso já produzido sobre o uso contemporâneo de psicodélicos fora de contextos clínicos.
O resultado central é inequívoco: 4,26% dos adultos dos Estados Unidos (cerca de 11 milhões de pessoas) usaram psilocibina no último ano, conforme observado na Figura 1 e na Tabela 1. Quando uma prática atinge essa escala, ela deixa de ser marginal. Torna-se um fenômeno social mensurável, com implicações diretas para saúde pública, regulação e cultura.
A pluralidade silenciosa do campo psicodélico
Embora a psilocibina lidere com ampla vantagem, os dados indicam a existência de uma diversidade de substâncias cujo uso permanece pouco reconhecido no debate público. Após a psilocibina (~11,1 milhões), aparecem:
MDMA/MDA (~4,7 milhões)
Amanita muscaria (~3,5 milhões)
Ketamina (~3,3 milhões)
LSD (~3,0 milhões)
A presença da Amanita muscaria (L.) Lam. (cujo princípio ativo é o ácido ibotênico e o muscimol), em terceiro lugar é talvez o dado estrategicamente mais revelador. Por não conter psilocibina e escapar de convenções internacionais específicas, ela floresceu em um espaço regulatório ambíguo, frequentemente comercializada online como “cogumelo legal”. Isso demonstra um princípio recorrente na história das drogas: quando a regulação não acompanha a realidade social, mercados paralelos emergem espontaneamente.
A revolução silenciosa da microdosagem
Se a prevalência anual define a escala do fenômeno, a microdosagem revela sua transformação cultural profunda. O levantamento estima que cerca de 10 milhões de adultos microdosaram psilocibina, LSD ou MDMA no último ano. Entre usuários de psilocibina, 69% relataram ter microdosado ao menos uma vez. A distribuição dessa prática entre os usuários de cada substância é apresentada na Figura 2.
Mais impressionante ainda é a análise de dias agregados de uso. Adultos norte-americanos utilizaram psilocibina por aproximadamente 216 dias no ano (no período de 12 meses analisado), dos quais cerca de 102 — quase metade — corresponderam à microdosagem. Padrões semelhantes aparecem para MDMA e LSD, com cerca de 40% a 42% dos dias de uso em microdose, conforme observado na Figura 3 e Tabela A.3.
Esse dado desloca o imaginário clássico dos psicodélicos. Eles deixam de ser associados apenas a experiências episódicas intensas e passam a integrar rotinas cotidianas de autorregulação psíquica, criatividade e bem-estar. Trata-se de uma verdadeira farmacologização do cotidiano subjetivo.
Limites metodológicos e robustez científica
Como todo levantamento populacional, os resultados baseiam-se em autorrelato, não em confirmação toxicológica. A própria definição de microdose permanece subjetiva, embora frequentemente descrita na literatura como uma dose subperceptiva — isto é, que não produz efeitos psicoativos evidentes —, geralmente correspondente a cerca de 5% a 10% de uma dose recreativa (HUTTEN et al., 2020).
As análises de sensibilidade demonstraram estabilidade das estimativas quando comparados casos completos e dados imputados, sem variações substantivas nos intervalos observados, reforçando a robustez metodológica dos resultados. Os detalhes encontram-se na Tabela A.1 do Apêndice A.
O espelho americano e a invisibilidade brasileira
Como governar aquilo que você se recusa a medir?
Enquanto os EUA dispõem de estimativas nacionais robustas, o Brasil permanece em vazio epidemiológico quase absoluto sobre psilocibina, ayahuasca, jurema e outras substâncias. Essa lacuna produz três vulnerabilidades estruturais:
Cegueira regulatória, com políticas repressoras, formuladas sem base populacional.
Submissão cultural, ao importar marcos interpretativos estrangeiros.
Dependência científica, que limita inovação e soberania sanitária.
Sem dados próprios, o país abdica de sua soberania cognitiva sobre um fenômeno social emergente.
Além dessas vulnerabilidades, essa lacuna epidemiológica sustenta uma atuação estatal pautada na criminalização de condutas que não apresentam risco relevante à saúde pública, voltando-se, assim, contra fungicultores e usuários cujos atos, em regra, não criam perigo concreto à coletividade ou à própria integridade. São pessoas que, à míngua de uma regulação adequada e diante da impossibilidade de acesso a recursos formais de saúde mental (ou em busca de uma relação autônoma com o sagrado, ou na tentativa de gerir dificuldades psicoemocionais), recorrem ao cultivo ou à microdosagem como estratégias de autocuidado e transcendência. Sem dados que descrevam essas motivações e contextos, a política de drogas permanece refém de um paradigma puramente proibitivo, convertendo práticas de autogestão e busca de sentido em ilícitos penais. Diante desse cenário, a resposta brasileira não pode começar por proibições interpretativas, nem por fuga regulatória, tampouco por liberação incondicional.
O contraste estrutural entre a base empírica disponível nos Estados Unidos e o vazio informacional brasileiro pode ser sintetizado na Tabela C.1, que explicita as assimetrias em dados epidemiológicos, regulação, debate público e acesso à pesquisa clínica. Deve começar por algo mais fundamental: informação e conhecimento.
Claro está que um caminho responsável se constrói, portanto, sob a égide de três atos:
Medir: produzir um levantamento epidemiológico nacional comparável ao conduzido pela RAND.
Diferenciar: estruturar regulação plural, sensível às distintas substâncias, contextos e perfis de risco.
Investigar: desenvolver pesquisa soberana sobre efeitos clínicos, culturais e sociais no próprio território brasileiro. Antes de legislar a esmo sobre substâncias, uma nação precisa ter acesso às informações que lhe permitam compreender a si mesma, decidindo sobre seus caminhos, bem como sobre os critérios determinantes da regulação.
A escolha civilizacional brasileira
O estudo da RAND marca a passagem histórica dos psicodélicos do campo moral para o campo epidemiológico. Isso não determina qual política adotar, mas redefine o nível de seriedade exigido do debate.
Enquanto os Estados Unidos mapeiam 216 dias de uso de psilocibina em um ano, o Brasil não consegue sequer mensurar o consumo de cogumelos psilocibinos pela sociedade – substâncias vendidas abertamente na internet há mais de duas décadas.
O Brasil enfrenta, portanto, uma escolha histórica:
reprimir por ignorância,
copiar modelos alheios,
ou compreender com rigor para regular com autonomia.
Assim, a lição que emerge deste espelho estatístico é clara: no século XXI, a soberania cognitiva precede e fundamenta todas as outras. Antes da soberania territorial ou econômica, é preciso conquistar a soberania sobre os próprios dados — isto é, sobre a narrativa quantitativa e qualitativa da própria sociedade. Sem esse autorretrato, os indivíduos que compõem uma nação abdicam do direito de se informar, de se compreender e, portanto, de definir com autonomia o próprio destino diante dos desafios novos e complexos postos à humanidade.
Referências
PRIEST, M.; KILMER, B.; SENATOR, B.; SETODJI, C. M. U.S. psychedelic use and microdosing in 2025: insights from a probability-based and nationally representative survey. Santa Monica: RAND Corporation, 2026. Research Report RRA4334-1.
HUTTEN, N. R. P. W. et al. Motivation and expectations for microdosing psychedelics. Journal of Psychopharmacology, Londres, v. 34, n. 11, p. 1213–1220, 2020. DOI: 10.1177/0269881120953994.
Apêndice: Análise de Sensibilidade e Dados Imputados
As Tabelas B.1, B.2 e B.3 a seguir apresentam análises de sensibilidade comparando estimativas obtidas a partir de casos completos com valores imputados, conforme reportado pela RAND.