Dois novos estudos clínicos investigam o potencial terapêutico da psilocibina
Na última semana, dois novos estudos clínicos piloto foram publicados investigando o potencial terapêutico da psilocibina em diferentes condições de saúde mental. Embora ainda preliminares, os resultados contribuem para um campo de pesquisa que tem crescido rapidamente nos últimos anos.
Psilocibina ou adesivo de nicotina para cessação do tabagismo
Pesquisadores da Johns Hopkins University publicaram na revista científica JAMA Network Open um ensaio clínico piloto comparando dois tratamentos para parar de fumar: uma sessão de psilocibina associada à terapia cognitivo-comportamental (TCC) e o tratamento padrão com adesivo de nicotina, também acompanhado de TCC.
O estudo incluiu 82 fumantes adultos, todos com histórico de tentativas anteriores de parar de fumar. Os participantes foram divididos em dois grupos:
um recebeu uma dose única de psilocibina (30 mg/70 kg) em ambiente clínico supervisionado;
o outro iniciou um tratamento convencional com adesivo de nicotina por 8 a 10 semanas.
Ambos os grupos participaram de um programa estruturado de 13 semanas de terapia cognitivo-comportamental.
Principais resultados
Seis meses após o tratamento:
40,5% dos participantes do grupo da psilocibina permaneceram abstinentes do cigarro
apenas 10% do grupo que utilizou adesivo de nicotina alcançou o mesmo resultado.
Além disso, 52,4% dos participantes que receberam psilocibina estavam sem fumar na semana anterior à avaliação de seis meses, contra 25% no grupo do adesivo.
Esses resultados sugerem que a psilocibina pode representar uma abordagem promissora para o tratamento do transtorno por uso de tabaco, uma das principais causas de morte evitável no mundo.
Limitações do estudo
Apesar dos resultados encorajadores, os autores destacam várias limitações:
o estudo é piloto, com tamanho de amostra relativamente pequeno;
participantes e pesquisadores sabiam qual tratamento estava sendo aplicado;
a amostra tinha baixa diversidade étnica e muitos participantes já tinham experiência prévia com psicodélicos;
o grupo da psilocibina teve maior tempo de contato com a equipe terapêutica, o que pode ter influenciado os resultados.
Estudos maiores e controlados serão necessários para confirmar esses achados e avaliar a viabilidade dessa abordagem em larga escala.
Doses repetidas de psilocibina no transtorno obsessivo-compulsivo
Outro estudo clínico recente investigou o uso de doses repetidas de psilocibina no tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), uma condição psiquiátrica frequentemente difícil de tratar. Os tratamentos atuais, como os inibidores da recaptação de serotonina e a terapia cognitivo-comportamental, nem sempre produzem resposta satisfatória para todos os pacientes.
Neste ensaio clínico randomizado, 15 participantes com TOC moderado a grave foram distribuídos em três grupos para receber quatro sessões semanais de:
psilocibina em dose alta (300 µg/kg)
psilocibina em dose baixa (100 µg/kg)
placebo ativo (lorazepam)
Após essa primeira fase duplo-cego, todos os participantes receberam quatro sessões adicionais de psilocibina em dose alta em uma segunda fase do estudo. No total, os participantes puderam receber até oito sessões com psilocibina ao longo de oito semanas.
A gravidade dos sintomas foi avaliada por meio da Escala Yale-Brown de Obsessões e Compulsões (Y-BOCS), um dos principais instrumentos clínicos utilizados para medir a intensidade do TOC. Os participantes também foram acompanhados por até seis meses após o tratamento.
Principais resultados
Ao final das oito semanas de tratamento:
73,3% dos participantes foram considerados respondedores, apresentando redução de pelo menos 35% na pontuação da Y-BOCS;
40% dos participantes atingiram remissão clínica dos sintomas.
Os efeitos terapêuticos diminuíram ao longo do tempo, mas ainda permaneceram substanciais após seis meses de acompanhamento.
Além disso, análises adicionais sugeriram que maior exposição cumulativa à psilocibina esteve associada a maiores reduções nos sintomas de TOC.
Segurança
A psilocibina foi bem tolerada no ambiente clínico do estudo:
não houve eventos adversos graves;
não foram observados sintomas psicóticos;
não houve mudanças significativas nos indicadores de risco de suicídio.
Limitações do estudo
Apesar dos resultados promissores, os autores destacam algumas limitações importantes:
amostra pequena (15 participantes);
necessidade de ensaios clínicos maiores e mais robustos para confirmar a eficácia;
ainda é necessário refinar os protocolos de dosagem e frequência das sessões.
Os resultados sugerem que múltiplas doses de psilocibina em ambiente clínico controlado podem representar uma abordagem terapêutica promissora para o TOC, mas estudos adicionais serão fundamentais para confirmar esses achados.
O avanço de uma área promissora
A pesquisa científica sobre psilocibina tem avançado rapidamente nas últimas duas décadas, explorando possíveis aplicações terapêuticas em condições como:
depressão resistente ao tratamento
dependência química
ansiedade associada a doenças graves
transtorno obsessivo-compulsivo.
Embora os resultados iniciais sejam encorajadores, a comunidade científica destaca que ensaios clínicos maiores, randomizados e controlados ainda são necessários para confirmar a eficácia, segurança e aplicabilidade dessas intervenções.
O Instituto Micélio Sagrado (IMS) segue acompanhando atentamente o avanço da ciência nessa área promissora, contribuindo para ampliar o debate público com base em evidências científicas.
Referências
Johnson MW, Naudé GP, Hendricks PS, Garcia-Romeu A. Psilocybin or Nicotine Patch for Smoking Cessation: A Pilot Randomized Clinical Trial. JAMA Netw Open. 2026 Mar 2;9(3):e260972. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2026.0972.
Moreno FA, Allen KE, Wiegand CB, Dunne R, Prickett JI, Bayze B, Allen JJB. A randomized clinical trial of repeated doses of psilocybin for the treatment of obsessive-compulsive disorder. J Psychopharmacol. 2026 Mar 13:2698811261424214. doi: 10.1177/02698811261424214.